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FOGO LENTO

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Foto de Thiago Liberdade

ESPAÇO  COMUM

A inventividade coletiva floresce na produção e utilização de espaços liminares*

Stavros Stavrides

Este texto reúne algumas reflexões e questionamentos sobre o Espaço Comum, um projeto de criação e programação artística em contexto específico, promovido pela Circolando - Central Elétrica em São Pedro, um lugar na freguesia de Campanhã, no Porto. 

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Vivemos num tempo paradoxal em que estamos intensamente conectados com todas as partes do mundo, mas progressivamente afastados do contacto direto com as pessoas e os lugares que habitamos. Este afastamento produz alheamento, fragiliza os laços de vizinhança e corrói a confiança. Aquilo que não conhecemos dificilmente nos toca - e do que não nos toca dificilmente cuidamos. Ao fim de quase 20 anos a trabalhar numa antiga central termoelétrica transformada em espaço de ensaio e residência, circundada por muros altos e localizada num eixo de circulação entre vias rápidas e o centro da cidade do Porto, quisemos sair do espaço fechado e olhar para as nossas vizinhanças.

São Pedro é um lugar periférico, com diversas problemáticas socio-económicas, como o envelhecimento da população, a pobreza e exclusão social, que enfrenta atualmente um processo de gentrificação acelerado. Ainda mantém um forte contexto rural e um espírito de aldeia que nos interessa particularmente pelo seu potencial para explorar uma ideia de cidade ligada à terra e a ecossistemas interdependentes.

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Após alguma observação, decidimos criar um espaço de encontro e de partilha, a que chamamos Espaço Comum. Começamos pela construção e instalação de uma estrutura de mobiliário urbano no Largo de São Pedro, com o intuito de estimular a convivência entre vizinhos, transeuntes e visitantes ocasionais. Stavros Stavrides, arquitecto, teórico e activista grego sublinha o potencial da produção de espaços comuns através de práticas coletivas. Essas práticas que instituem o comum são simultaneamente desenvolvidas nesses mesmos espaços e desencadeadas tanto por necessidades urgentes do quotidiano, como pela efervescência das experiências em comunidade. Um espaço comum é um espaço criado de forma conjunta, liminar, poroso que só existe enquanto for produzido, cuidado, mantido. 

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Inspirados pelo projecto “Bodies of Knowledge” da artista belga Sarah Vahnee, testamos então a criação de um espaço com uma programação feita sob o mote do encontro, da partilha e do bem comum, acreditando que deste cruzamento com o outro nasce a possibilidade de imaginar e ensaiar mundos diferentes. 

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Em traços muito gerais, as atividades organizam-se em duas linhas principais. A primeira linha, mais pontual e de maior escala, assenta no desenvolvimento de residências artísticas no território por artistas convidados. A segunda linha, com carácter mais regular e de menor escala, arrancou com dois projectos de longa duração, desenvolvidos por artistas do Porto - Rebecca Moradalizadeh e Tânia Dinis -, que se debruçam sobre práticas de convivialidade como trocar receitas e formas de cozinhar ou manipulação de arquivos e memórias. Nesta linha organizamos também ações de sensibilização ambiental e ecológica, como caminhadas, jornadas de limpeza do Rio Torto, passeios para avistar pirilampos e conversas sobre a água, com o apoio da E.Rio, uma empresa sediada no local. A esta malha junta-se uma parceria com o Clube de Cinema de Campanhã, com sessões de visionamento de filmes organizadas não por curadoria, mas a partir de propostas dos participantes.

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A partir desta estrutura, pretende-se que as propostas de programação surjam de forma natural e consequente. Por exemplo, um passeio pelos terrenos baldios e hortas de São Pedro para apanhar PANCs (plantas alimentícias não convencionais) sugerido pelo João, fundador da Quercus e antigo habitante de São Pedro, depois de assistir à mostra de processo da artista chilena Paula Aros que nos levou a caminhar pelos campos locais.

Com o passar do tempo vêm surgindo novas linhas condutoras, como o clube do espectador. Ao final do primeiro ano, os habitantes locais demonstraram interesse no nosso projecto artístico para além do Espaço Comum e começámos a organizar visitas à Central Elétrica e a outros espaços culturais da cidade e fora dela para assistir a espetáculos. Nossos e de outros artistas.

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A programação procura assim ativar um campo relacional onde a experiência partilhada sustente a possibilidade de comunidade entre habitantes de São Pedro, artistas, público familiarizado com práticas artísticas, pessoas interessadas em ecologia e público geral. O espaço comum foi transbordando para outros locais, como a sede das associações locais e está agora em qualquer local onde nos encontremos.

O que tocamos também nos toca

 

​​A criação de espaços de encontro significativos não depende apenas de dispositivos espaciais ou de escolhas programáticas acertadas, mas sobretudo da capacidade de sustentar relações ao longo do tempo e de manter um fluxo de interdependência entre as diferentes partes do ecossistema construído. É nesse tempo prolongado - e não no momento do evento - que o projeto se transforma num processo vivo. Este vínculo continuado com um lugar e uma comunidade ativa uma reflexão interna dentro das organizações culturais que atravessa todos os campos do fazer artístico: da programação à produção, da comunicação à avaliação. A prática artística deixa então de operar numa lógica unidirecional de entrega - apresentar, mediar, oferecer - para se tornar um fluxo poroso, multidirecional e permeável ao contexto local - estar com, pensar com, fazer com.

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Se, numa fase inicial, partilhamos o que pôr na mesa, com o tempo passamos a partilhar decisões e propostas de programação. A confiança torna-se terreno fértil para que o público e os artistas convidados se reconheçam como agentes do processo e possam imaginar novos passos. Este carácter “em aberto”, capaz de absorver os desejos do grupo sem se dissolver, é tanto mais possível quanto maior for a proximidade relacional, entendida não como busca da homogeneidade, mas como estímulo da multiplicidade, alteridade, escuta e atenção ao outro.

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A tentativa de coerência entre programa e formas de o produzir traduziu-se na adopção consciente de princípios inspirados na permacultura, entendidos como quadro ético-operativo. Em particular, a noção de agência revelou-se central: reconhecer que todas as pessoas envolvidas são criadoras e que é possível construir a partir do que já existe no território - recursos humanos, infra-estruturas, saberes, ritmos, ecologias.

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Este conceito contraria a lógica extrativista que estrutura grande parte das políticas culturais contemporâneas, assentes na criação rápida de projetos, na replicação de soluções e no escamoteamento da profundidade pela visibilidade. Em São Pedro, cada nova etapa do processo começa por um exercício de observação: que recursos existem? quem já está a fazer? que relações podem ser ativadas? Em vez de procurar uma autonomia organizacional abstracta, optou-se conscientemente por produzir em relação. O projecto compõe-se em diálogo com as associações e comunidades locais, utilizando espaços, redes de contacto, serviços e saberes já existentes. 

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Esta forma de produzir atravessa também a comunicação, entendida como parte constitutiva do processo relacional e não como mera divulgação. Privilegiam-se formatos físicos que permitem o contacto directo com o público: a distribuição de cartazes pelos locais centrais é em si um momento de encontro; o design aposta em cores fortes e linguagem clara; o convite à participação é feito também por mensagem e telefonema directo e pela organização de boleias. Os dias e horários das atividades são articulados com as associações locais antes de serem anunciados, para não se atropelarem num território onde a oferta cultural é escassa. Com o tempo, vimos aprendendo os ritmos locais, quando não faz sentido insistir e quais os momentos em que a participação se torna mais ampla.

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Por fim, a manutenção deliberada de um projeto de baixo custo é consciente, confere autonomia em relação a financiamentos externos e garante uma visibilidade contida. A pouca institucionalidade cria espaço para experimentar livremente, falhar, ajustar e voltar a tentar. É essa margem de manobra que permite colocar o processo no centro e afirmar que, mais do que produzir bons projectos artísticos procuramos sustentar bons processos: atentos, situados, relacionais e eticamente comprometidos com o modo como se fazem.

As formas densas do cuidar*
Maria Puig de la Belacasa

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Apesar de assumir como princípios o cuidado, a experimentação, o tempo expandido e a proximidade, o projecto não deixa de conter em si mesmo zonas de fricção. Como consequência direta da sua ambição ética, colocam-se questões sobre o impacto real do trabalho desenvolvido, sobre as métricas que o avaliam, sobre a própria pertinência da sua continuidade e sobre a forma como as decisões são tomadas. O tempo alargado, que permite aprofundar relações e testar processos, traz também o risco de cristalizar práticas e de transformar o experimental em hábito.

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A questão da relevância e do impacto é talvez o ponto de tensão mais persistente. As transformações que o projecto procura activar são, em grande parte, qualitativas e relacionais - mudanças subtis nos modos de estar, de confiar e de encarar o outro. Traduzir esse tipo de deslocamento em indicadores quantificáveis revela imediatamente os limites dos modelos dominantes de avaliação cultural. Se olharmos apenas para números, o contraste é evidente: muito tempo investido para um grupo regular de vinte a trinta pessoas, ainda que os momentos-festa possam reunir cerca de cem. No entanto, é no grupo mais pequeno que se tornam visíveis alterações comportamentais mais consistentes. A Rosa não saía de casa nem cumprimentava as vizinhas. Agora está mais alegre e conversa nos espaços públicos. Não sabemos quanto desta transformação se deve exclusivamente ao projecto, nem se persistirá no tempo, mas é este tipo de exemplos que constituem talvez o núcleo transformador do processo. A ativação do Espaço Comum depende em larga medida da nossa agência. Talvez a vontade de permanecer seja também atravessada pelo receio de que o que foi construído não resista à ausência. Justifica-se o dispêndio de tempo e energia face à escala alcançada? A pergunta permanece, mas talvez revele mais sobre os limites das métricas dominantes do que sobre o valor do processo.

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Outro ponto de discussão é a composição do programa. Embora o projecto convoque a participação e inclua momentos regulares de reflexão conjunta, a decisão final permanece sob responsabilidade da organização. A institucionalidade pode ser reduzida, experimental e permeável, mas não é inexistente. Não há neutralidade na escolha de artistas, temas ou formatos. O gesto programático subsiste, mesmo quando precedido por escuta e investigação no terreno. Se pedem Ruizinho Barros, propomos Marante e ficamos ambos satisfeitos. Não se trata de repetir o que já lá se fazia, nem de impor uma visão externa, mas de operar numa zona intermédia onde conflito e compromisso coexistem.

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A própria ideia de permanência abre outro campo de interrogação. Defender um tempo mais lento e contínuo implica resistir à lógica de rotatividade, mas também assumir o risco de ocupar demasiado espaço e tempo num território que não nos pertence. A continuidade responde a uma necessidade coletiva ou ao nosso desejo de testar uma cultura de permanência? Talvez as duas dimensões coexistam, mas escolher permanecer implica aceitar a responsabilidade que essa escolha produz. 

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Por fim, a responsabilidade relacional conduz a uma questão delicada: como manter o grupo simultaneamente coeso e poroso? A intensidade dos vínculos cria segurança, mas pode gerar fechamento. Um coletivo demasiado estável pode tornar-se impermeável; demasiado aberto, pode perder a intimidade que sustenta a confiança. Acresce uma limitação prática: o aumento do número de participantes compromete a capacidade de atenção individual e de acompanhamento próximo. A tensão não é apenas teórica; é organizacional e afetiva. Como acolher novas pessoas sem fragilizar quem já está? Como evitar que o convite à participação se transforme num dispositivo artificial de integração? Como manter o espaço comum numa condição liminar: suficientemente estruturado para existir, suficientemente aberto para se transformar?

Quaisquer que sejam os erros que cometamos, não serão os mesmos do passado*
Rebecca Solnit

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O Espaço Comum não se propõe assim como modelo nem como solução. Funciona como um laboratório situado onde se ensaiam modos eco-éticos de produção cultural: formas de programar que respeitam ritmos locais e procuram simbioses com o território, processos de trabalho que privilegiam os bons encontros, práticas organizativas que aceitam limites, dependência, conflito e a possibilidade de falhar. Talvez seja aqui que se joga a sua dimensão mais política: afirmar que a produção cultural é também um exercício de responsabilidade relacional e que não há espaço comum sem coerência entre aquilo que se defende e a forma como se trabalha. O comum não se declara - constrói-se, lentamente, nos modos de fazer juntos. E pode sempre desfazer-se.

Ana Carvalhosa
2026

Referências:

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Espaço Comum - A Cidade como Obra Colectiva, Stavros Stavrides, Orfeu Negro (2021)

 

Hope In The Dark: Untold Histories, Wild Possibilities, Rebecca Solnit, Canongate (2016)

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Comum: pela política e estética da partilha, Pascal Gielen e Denise Pollini

https://medialibrary.uantwerpen.be/files/1781751/005a0a58-025d-4e73-a09c-cb624c4d5705.pdf


Nothing comes without its world: thinking with care, María Puig de la Bellacasa
https://simposioestudosfeministasct.wordpress.com/wp-content/uploads/2015/03/puig-de-la-bellacasa-2012-nothing-comes-without-its-world.pdf

 

Radical Imagination: An Exploration of Social Art Practices, Tina Lenz, https://www.radicalcreativities.com/post/radical-imagination-an-exploration-of-social-art-practices

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Bodies of Knowledge, Sarah Vahnee,

https://www.sarahvanhee.com/bodies-of-knowledge

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