FOGO LENTO
Pesquisa artística transdisciplinar
Escuro, Deserto, Branco, Real Real Real
CAMPO um corpo Terra | Lugar | Espaço
Modo Selvático – Sem Pânico
Uma reflexão e 7 perguntas que congerminam
Como expandir nossa noção de comunidade para abraçar não apenas humanos, mas todas as conexões — históricas, ecológicas, intangíveis — que sustentam um lugar?
Sombras, pássaros, sol,
histórias atravessam o chão —
todos são tecido.
Estamos sempre a germinar. Estamos sempre a pensar. O selvático não conhece pânico: conhece apenas fluxos, ritmos, renascimentos.
A ecologia profunda convida-nos a abandonar a visão instrumental da natureza como simples recurso ao serviço do humano e ensina-nos a reconhecer que cada forma de vida possui valor em si mesma, independentemente da utilidade que lhe possamos atribuir. A selva não precisa de justificar-se; a chuva não pede permissão; o rio não carece de função para ser. A vida, na sua dimensão selvática, é um contínuo de interdependências e reciprocidades, e o rizoma é a metáfora desse devir: não existe centro, hierarquia, início ou fim, mas sim uma multiplicidade de conexões que se sustentam mutuamente.
De que forma a experiência sensível e corporal do espaço pode transformar a nossa maneira de habitar o mundo e de nos relacionar com o ambiente e uns com os outros?
A pele toca o céu,
os pés afundam-se na memória
o mundo que respira.
O espaço do CAMPO (Centro periférico de contaminação entre arte, ciência e ambiente), apresenta-se como um espaço em devir, simultaneamente impresso pelo labor humano na abertura de caminhos, no plantio de árvores, na construção de uma cúpula geodésica e deixado em liberdade para o crescimento não programado do que há-de vir o avanço da vegetação, o reconhecimento de participantes e públicos de uma programação diversa, a colonização do solo por líquenes... Essa complexidade não é um “problema” a resolver, mas um equilíbrio, uma sabedoria que se revela e com a qual podemos apurar a nossa visão para a relação com o entorno.
O corpo é a “afectação”, isto é,
a capacidade que ele tem de se deixar afectar pelo entorno.
Bruno Latour
Ser um corpo é estar preso a um determinado mundo. Antes de mais, o nosso corpo não se encontra no espaço; pertence-lhe.
Maurice Merleau-Ponty
O que podemos aprender com o selvático sobre viver com o imprevisível e o incontrolável, em vez de tentar dominar o mundo à nossa volta?
Rios que se dobram,
montanhas respiram ao vento —
dança sem dono.
Transportar esta visão significa libertarmo-nos por instantes de modelos lineares e centralizados abrindo-o a lógicas rizomáticas de interação entre pares das quais só temos por certo as evidências do ponto de vida em que estamos. No contexto dos encontros *NAP, realizados no CAMPO, partíamos de um contexto particular:
-
um grupo de convidados com múltiplos pontos de interesse, múltiplas práticas; diferentes corpos com diferentes experiências e expectativas;
-
um espaço físico que reúne temporariamente estes corpos e que se apresenta simultaneamente como campo de ação em devir e objecto de reflexão em porvir;
-
o desejo de inspirar e cultivar a abertura para o que há-de vir enraizando em práticas presentes.
Pode a prática artística ser mais do que expressão individual e tornar-se um modo de escuta profunda e diálogo com o espaço, revelando camadas invisíveis da vida?
Som invisível,
cores falam com a brisa —
eco da vida.
*NAP Núcleo de Ação e Pensamento - Procurando nos processos artísticos modos, perspetivas e ferramentas para imaginar o lugar testando perceções, sentidos e relações, transformando experiências pessoais em experiências compartilháveis, abrindo espaço para o inesperado e para o selvático.
Tal como num ecossistema, temas ou interesses não dependem de um gesto isolado ou de uma autoridade que determine o seu rumo mas sim crescem em relação - com o espaço, connosco, com as histórias que o atravessam, com as temporalidades que o sustentam.
Crescer em relação, alimentar a selva como uma ética da continuidade da vida em toda a sua diversidade: talvez seja esse o horizonte em que se pode compreender a sustentabilidade. Sustentar é permitir que o inesperado tenha lugar, é criar condições para que o que não controlamos também floresça, é assumir que o selvático, com a sua aparente desordem, é o guardião da resiliência.
Essa atenção ao inesperado e ao selvático revela que a vitalidade de um lugar não se constrói apenas através de regras ou de planeamento centralizado, mas pela capacidade de acolher princípios de multiplicidade e espontaneidade.
E se compreendêssemos o espaço social e natural como um rizoma, sem centro nem hierarquia, como isso mudaria nossas estruturas de poder e de tomada de decisão?
Raízes entrelaçam
céus, pedras e memórias —
tecido sem fim.
Enquanto o Place Making² centra-se na criação de espaços públicos através da participação comunitária, ele per se não chega a abarcar de uma forma plena a experiência vivida nos encontros do NAP, marcada por múltiplas camadas de interação, fluxos imprevisíveis e relações que se entrelaçam além da esfera comunitária imediata. A partir dessa constatação surge o conceito de Connecting Place³ não apenas como um espaço onde as pessoas se reúnem, mas um ponto de interseção de relações diversas - humanas e não-humanas, históricas e contemporâneas, tangíveis e intangíveis. Trata-se de perceber o lugar como um organismo vivo, em que cada gesto, cada presença, cada memória e cada recurso ecológico contribui para a sua vitalidade.
Um Connecting Place valoriza tanto os encontros previstos quanto os inesperados, reconhecendo que o significado de um lugar constrói-se na interação entre elementos distintos e muitas vezes imprevisíveis. Ele surge da atenção às conexões: entre pessoas, entre pessoas e objetos, entre cultura, natureza e história. O objetivo não é apenas fortalecer laços sociais, mas também revelar e amplificar as redes complexas que sustentam a vida de um lugar. Em vez de se limitar à participação direta de uma comunidade específica, um Connecting Place abraça a multiplicidade, permitindo que diferentes ritmos, temporalidades e perspectivas coexistam e se entrelacem.
Portanto enquanto o Place Making celebra a identidade coletiva e a agência da comunidade, o Connecting Place expande essa noção para um ecossistema relacional mais amplo, no qual o valor de um lugar emerge do entrelaçamento de conexões múltiplas, dinâmicas e interdependentes. Essa perspectiva leva-nos a reconhecer que a vitalidade de um lugar não depende apenas da ação intencional das pessoas, mas também da abertura para o inesperado, do espaço que concedemos às forças não controláveis que o atravessam. É aqui que a dimensão do selvático se revela: ele ensina-nos que a vulnerabilidade não é fragilidade, mas condição de sobrevivência. Ao nos entrelaçarmos uns nos outros e com o ambiente que habitamos, aceitando a nossa interdependência com o mundo mais amplo, tornamo-nos sustentáveis como ecossistema, permitindo que o lugar floresça em toda a sua complexidade.
O que significa realmente sustentar a vida quando entendemos que a resiliência depende de acolher o inesperado e permitir que o selvático floresça?
Flores despontam
em fissuras de silêncio —
a vida reinventa-se.
Assim, acreditamos que criação artística e de produção realizada no CAMPO e inspirada por esta ecologia profunda, tem uma forte probabilidade de deixar de ser um ato de imposição e passar a ser um ato de escuta. Escuta da Terra|Lugar|Espaço, do silêncio, dos fluxos invisíveis, das vozes que não costumam ser ouvidas. Uma arte que não procura dominar, mas partilhar; que não busca impor forma, mas dialogar com os ritmos subterrâneos do devir.
Ao reconhecermos e integrar-nos nessa complexidade — na qual o selvático evidencia que a vida encontra sempre caminhos de passagem — podemos compreender a arte como uma dimensão indissociável da respiração da Terra|Lugar|Espaço. A criação, nesse sentido, ocorre de forma compartilhada, sustentada pelo ecossistema do qual somos constituintes, englobando tanto os elementos naturais quanto as dinâmicas de energia e de relação.
Como expandir nossa noção de comunidade para abraçar não apenas humanos, mas todas as conexões — históricas, ecológicas, intangíveis — que sustentam um lugar?
Sombras, pássaros, sol,
histórias atravessam o chão —
todos são tecido.
Referências
Caillois, Roger.
Caillois, R. (s.d.). Roger Caillois. Wikipédia em português.
Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Roger_Caillois
Haraway, Donna.
Haraway, D. (2016). Staying with the Trouble: Making Kin in the Chthulucene. Durham: Duke University Press.
Ingold, Tim.
Ingold, T. (2000). The Perception of the Environment: Essays on Livelihood, Dwelling and Skill. London: Routledge.
Ingold, T. (2011). Being Alive: Essays on Movement, Knowledge and Description. London: Routledge.
Næss, Arne.
Næss, A. (1973). The shallow and the deep, long‐range ecology movement: A summary. Inquiry, 16(1–4), 95–100.
https://doi.org/10.1080/00201747308601682
Project for Public Spaces.
Project for Public Spaces. (2008). What is placemaking?
Disponível em: https://www.pps.org/article/what-is-placemaking
Acesso em: [data de acesso].
ConnectingPlace.
ConnectingPlace. (s.d.). Conceito emergente da experiência dos encontros do NAP e de práticas artísticas desenvolvidas no âmbito do Teatro do Frio, centrado na atenção às múltiplas conexões que constituem a vitalidade de um lugar.
Exemplo de aplicação:
Teatro do Frio – Selva Coragem.
Disponível em: https://teatrodofrio.com/selva-coragem-1
Experiência Especulativa com a IA
Para explorar e tensionar esta dimensão corpórea/espacial, optámos por recorrer à inteligência artificial, solicitando que esta nos devolvesse perguntas relativas ao texto previamente elaborado. Simultaneamente, a IA foi encarregada de transformar essas questões em haikus, funcionando como uma forma de provocação poética e conceptual. Apresentamos, a seguir, os resultados deste exercício:
-
O que podemos aprender com o selvático sobre viver com o imprevisível e o incontrolável, em vez de tentar dominar o mundo à nossa volta?
Rios que se dobram,
montanhas respiram ao vento —
dança sem dono.
2. Se cada forma de vida possui valor em si mesma, como isso transformaria radicalmente nossa ética, nossas escolhas e nosso papel como espécie no
planeta?
Folhas como espelhos,
cada sussurro da terra —
universo pulsa.
3. E se compreendêssemos o espaço social e natural como um rizoma, sem centro
nem hierarquia, como isso mudaria nossas estruturas de poder e de tomada
de decisão?
Raízes entrelaçam
céus, pedras e memórias —
tecido sem fim.
4. Pode a prática artística ser mais do que expressão individual e tornar-se
um modo de escuta profunda e diálogo com o espaço, revelando camadas
invisíveis da vida?
Som invisível,
cores falam com a brisa —
eco da vida.
5. Como expandir nossa noção de comunidade para abraçar não apenas humanos,
mas todas as conexões — históricas, ecológicas, intangíveis — que
sustentam um lugar?
Sombras, pássaros, sol,
histórias atravessam o chão —
todos são tecido.
6. O que significa realmente sustentar a vida quando entendemos que a
resiliência depende de acolher o inesperado e permitir que o selvático
floresça?
Flores despontam
em fissuras de silêncio —
a vida reinventa-se.
7. De que forma a experiência sensível e corporal do espaço pode transformar
nossa maneira de habitar o mundo e de nos relacionar com o ambiente e uns
com os outros?

