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FOGO LENTO

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Ainda nos faltam muitos triângulos

Se me perguntarem o que este espaço é, diria que é um vazio à espera de ser preenchido, cada vez menos vazio. Cada ano, um pouco mais preenchido. Tentamos fazer coisas que ainda não existem, por isso, parece sempre que estamos a começar, embora se reconheçam ciclos — amanhã voltamos a abrir buracos para plantar árvores e arbustos. 

​Grande parte das coisas que aqui já fizemos, tem as costuras à vista. A maior parte das vezes, parecem que ainda não estão bem prontas. Não sabemos bem quanto é que vão durar e por vezes, até acabam por desaparecer, mas dá sempre para ir buscar uma peça velha para uma coisa nova. Vamos sentindo que se vai acumulando, além das peças, saber. Estamos no mesmo lugar, mas não estamos no mesmo ponto onde começamos. 

 

Falamos repetidamente na construção de um espaço que proponha modelos alternativos: com ritmos lentos; onde errar não é um problema, mas sim um passo que pode abrir outras possibilidades; onde o distanciamento — obrigatório pelo facto de não ser daqui que retiramos a base financeira para nosso sustento — produz reflexão; com espaço para, se for caso disso, recomeçar.

Neste sentido, a construção da Geodésica e a sua implantação no espaço podem espelhar bem este modus operandi.

 

Tínhamos, graças à extinta Casa das Brincadeiras, uma série de ferros de andaime, que dispostos de uma certa maneira, edificavam uma geodésica. Este material estava guardado na velha adega, junto com tantas outras coisas que fomos armazenado, à espera de um momento para ver a luz do dia. 

[Certo dia, lancei a o repto ao Nuno Guedes (um dos fundadores da Casa das Brincadeiras) para levantarmos de novo a Geodésica. Foi uma tarde bem passada e no rescaldo deste momento, demo-nos conta que este novo elemento no espaço podia bem ser o primeiro passo para algo mais.]Por outro lado, tínhamos também um palco exterior que necessitava de encontrar outro poiso, pois estava em local abrangido pelas obras que se avizinham. Formulou-se a pergunta: será que a geodésica não pode ser uma cobertura para este palco? E não será possível, com poucos recursos, elaborar uma cobertura para este esqueleto? 

 

A Costanza conseguiu inserir este sonho num projecto maior e lá-se conseguiu financiamento. Montou-se a equipa — O Miro, o Baptista e o Nuno — e o objectivo — construir e cobrir esta estrutura, com a contingência de que seria com materiais que encontramos dentro das fronteiras deste espaço.

A propósito deste projecto, inserido no ciclo Congerminar, convidou-se a associação Nada Novo (nadanovo.org) para uma conversa. Esta associação promove a reutilização de componentes e materiais de construção, e explora os desafios culturais da sua aplicação.

Nesta conversa ficamos a saber que eles estão a fazer o mapeamento de fornecedores de materiais de construção usados, muitas vezes provenientes de trabalhos de demolições [a nível europeu já existe um site que compila esta informação- opalis.eu].

 

Voltando à parte prática.

Começamos por desmontar o palco e levar as peças para o novo destino. Foi simples com a ajuda de um reboque de tractor que os vizinhos gentilmente nos cederam (ficou neste momento assente que necessitávamos de um reboque para o nosso tractor de modo a carregar menos as nossas costas). Decidiu-se também, acrescentar mais dois módulos de palco, estendendo assim a sua área para um quadrado de 5mx5m. 

O posicionamento da Geodésica e posteriormente do palco nos doze metros de raio da estrutura, foi definido por um carvalho que estava a crescer.

 

O nivelamento do palco trouxe o primeiro deslize no calendário, pois se na construção com materiais saídos das prateleiras de um armazém qualquer, podemos com maior ou menor criatividade e conhecimento, passar de um esquema pré-desenhado para a acção. E se os cálculos e a destreza ajudarem, tudo corre como previsto. Por sua vez, as madeiras tortas e expostas à chuva e ao sol que queríamos reutilizar — os restos mortais do antigo barracão onde se guardavam as alfaias agrícolas desta quinta — não seguem a ortogonalidade da régua e do esquadro. E a singularidade que o passar do tempo tinha dado a estes materiais conferia-lhes, para além de um coeficiente de rigidez, volume e peso, uma voz activa no processo de construção. A irregularidade das suas formas únicas necessitou de um tratamento dedicado. Tivemos de aprender a projectar live e a estar em paz com construir, destruir e começar de novo — chegamos a esta conclusão depois de nos apercebemo-nos que o que se constrói sobre uma base frágil será, mais cedo ou mais tarde, necessário ser rectificado e a rectificação será sempre uma verruga, pelo menos para quem constrói.

Dos 10 dias pensados para toda a empresa, 3 foram exclusivamente para o nivelamento e montagem deste palco. Umas semanas antes, a estrutura geodésica, seguindo o esquema de montagem, montou-se num só dia…

 

No fim deste processo, fomos olhar à distância como se integravam estas duas estruturas: um Palco dentro de uma Geodésica. Foi aí que surgiu uma nova dúvida: com um palco assim nivelado, a estrutura também não teria que ser nivelada? Escaldados que estávamos pelos 3 dias de nivelamento do palco, não havia grande vontade. Vai-se para casa, dorme-se mal e no dia seguinte, decide-se nivelar também a estrutura. 

Procuram-se soluções olhando para o que temos volta, alia-se a este pensamento, a vontade de ir limpando o espaço e assim, chegamos a estes três materiais: areia, pedras e pneus. Edificamos colunas de apoio para os vértices, compostas por areia compactada e pedras, envoltas em velhos pneus. Se fosse hoje, teria deixado um cabo de aço por baixo destas colunas, de forma a depois poder abraçar o vértice, fazendo dessa forma uma espécie de amarração da estrutura ao chão.

 

Conseguimos levantar a estrutura graças à ajuda de novos, velhos e crianças que ali estavam reunidos no âmbito da actividade proposta pela Joana Magalhães, intitulada “Jardim” em colaboração com a Universidade Sénior de Pedroso e Seixezelo, juntos pousamos os vértices nas pequenas fundações de pneus areia e pedras. Em 30 minutos, o que parecia difícil tornou-se fácil. Todos fomos para casa contentes, o dia tinha passado e o nosso trabalho conjunto era palpável. 

 

Ao fim de 5 dias de trabalho, tínhamos um palco e uma geodésica, ambos nivelados e sob a protecção de um carvalho em crescimento. Só nos faltava agora cobrir os triângulos. São 30 com uma dimensão de 260x230x230 e 10 com 260x260x260 (cms).

Pois… o tempo não permitia cobrir todos. Ambição, ingenuidade, desfasamento da realidade, sim, sofremos disso, um pouco…

 

À noite, em casa, muitas vezes enquanto se arruma a cozinha, se coloca a roupa no estendal ou se dá água às plantas, as ideias surgem e de materiais que foram desenhados para determinada função, nascem outras funções, funções que vão para além daquela para que foi primariamente pensada.

Uma garrafeira pode tornar-se um vitral. Uma escápula para tubos de água pode ser a fixação ideal para vários materiais. Não um fim para que foi projectado, mas uma infinitude deles.

 

A lição que retiramos do nivelamento do palco, levou-nos a iniciar este processo não no papel, mas dispondo todos os materiais passíveis de serem usados em torno da estrutura: chapas metálicas onduladas, restos de placas de policarbonato, velhos tijolos de garrafeira de formas hexagonais, paletes meio destruídas, portas e janelas antigas, barrotes e vigas de madeira, folhas de uma palmeira que decepamos…No fim deste dia, tínhamos um cardápio bastante heterogéneo de possibilidades e pensar a cobertura tornou-se assim, um exercício menos abstracto.

 

Nos dias de trabalho seguintes, decidimos dedicarmo-nos à exploração de cada um destes materiais. Começamos pelos triângulos da base da geodésica e atiramo-nos aos tijolos de garrafeira que íamos colocando na estrutura, num misto de pensamento funcional e estético; são módulos que deixam passar o vento, mas que quando se fecham com garrafas podem coar a luz do sol de forma bastante mágica. Uma vez que as crianças são elementos disjuntivos de qualquer ambiente, precisamos pensar numa forma de fixar esta segunda pele à estrutura. Ah, as ferragens, tão belas pela sua normatividade e expectabilidade: os parafusos, os cabos de aço, os esticadores, as porcas de orelhas…

Neste processo, foram várias as vezes em que a forma seguiu, não a nossa vontade, mas a sua. Pode ser contraproducente tentar “dobrar” a forma ao nosso pré-conceito. 

 

No decorrer do processo, vários ajustes levaram a novos deslizes no calendário proposto, mas uma vez que conseguimos poupar nos materiais, pudemos gastar em mão de obra e ter mais 3 dias para fechar os triângulos a que nos tínhamos proposto, com os materiais disponíveis.

 

Claro, ainda nos faltam bastantes triângulos… A ver quando se fecha esta Geodésica...

 

No fim de todo este processo, jaziam ao redor da estrutura diversas paletes, algumas tábuas… restos que pareciam ter falhado o alvo. Algumas semanas depois, o alvo foi ao seu encontro e desta restolhada formou-se uma bancada que circunda a face nascente da estrutura. Iniciava-se assim, mais uma peça para preencher este projecto que, se tudo correr bem nunca estará fechado.

 

“Acredito seriamente que a natureza, o ambiente, o cenário (no momento da filmagem) e o material impressionado (no momento da montagem) se mostram frequentemente mais inteligentes que o autor e o realizador.

É uma grande sorte, quase até toda uma arte, conseguir ouvir e compreender o que significam a natureza ou os pormenores imprevistos de um cenário que se tenha concebido; escutar o que dizem, ao ajustar-se, os troços de filme para montar; e até as cenas, que vivem no ecrã de uma vida própria, rompendo tantas vezes os quadros de pensamentos de que partiram.

Tudo isto exige uma clareza da ideia-chave para cada cena ou cada fase da realização. E é necessária paralelamente uma não menor agilidade da escolha dos meios particulares de materialização.

É importante ser extremamente meticuloso para conhecer com perfeita exactidão a sonoridade que se procura alcançar, ao mesmo tempo que é preciso discernir com certa largueza para não se ficar privado dos materiais e dos processos imprevistos susceptíveis de fornecer essa sonoridade.”

S. M. Eisenstein

João Vladimiro
2026

Apêndice:

 

2500€ - mão de obra (13 dias x 2 pessoas)

 

1300€ - ferramentas e materiais (dos quais 900€ foram para o reboque)

 

384€ - consumíveis (as belas ferragens…)

 

100€ - 2 placas para o palco

 

 

Custo total 4284€

para VOLTAR carregue nas imagens:

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