MULHER-ROMÃ

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Há quanto tempo estou aqui dentro?

(inspira profundamente, como para cheirar) (com saudade) já não sinto nada. (lembra) Delicioso, enjoativo, agora nada. Tornou-se o meu próprio cheiro.

Uma mulher aprisionada dentro de uma romã reflete sobre a sua condição existencial. Uma performance transdisciplinar que projeta o espectador nas entranhas da protagonista do conto tradicional “As três romãs”.

Melagrana é uma projeto transdisciplinar,uma investigação sobre o lugar da mulher no imaginário popular, a partir do estudo dos contos tradicionais que inclui a escrita de um texto original, uma exposição, a estreia do espetaculo omonimo e momentos de partilha do processo com estudantes do Porto. 
O ponto de partida é o conto tradicional italiano “le tre melarance” (Itália) transcrito por Italo Calvino, utilizado sucessivamente para a criação da opera buffa de Prokoviev “o amor das três laranjas”. No conto, um príncipe procura uma mulher branca como o leite e vermelha como o sangue. Após várias peripécias, e o encontro com uma bruxa, recebe três romãs, das quais sairão três belíssimas mulheres.
Na peça a ser criada, a protagonista é uma das mulheres do conto, aprisionada dentro da romã, antes da chegada do príncipe. Em lugar das aventuras do homem, a peça focar-se-á no movimento interior da mulher confinada no fruto. Quem é ela? Como entrou lá para dentro? Qual é o seu passado? E o futuro? O que pensa? O que foi do seu corpo?
A mulher do conto, mera projeção do desejo do príncipe, transforma-se num ser complexo, que reflete sobre a sua condição. A imanência da condição feminina é levada ao seu extremo, uma mulher enclausurada num fruto à espera de alguém que a liberte, mas opera-se uma translação de ponto de vista para o Outro, lugar que historicamente pertence à mulher.
No texto deste espectáculo, procura-se uma possibilidade de salvação, não na chegada do príncipe, mas na acção do pensamento. Durante toda a peça, assistimos à tensão crescente entre os limites do fruto e a ebulição interior, provocada pela necessidade indefinida de se transcender. (Simone de Beauvoir – O segundo sexo, 1949)
O corpo da mulher está ausente fisicamente mas presente nas memórias e nos pensamentos, um corpo percebido como desmembrado, que já não pertence à voz. A romã é descrita como abrigo e corpo ao mesmo tempo, criando um imaginário que transita entre o conto tradicional grotesco e a ficção científica.
A diretora artistica Costanza Givone, acredita que o repertório do conto popular é extremamente precioso para percebermos os valores que regeram a sociedade ocidental ao longo dos séculos, e propõe, através do estudo dos contos tradicionais europeus, criar uma figura que personifique o conflito entre a mulher/arquétipo (numa perspetiva junguiana) e a mulher burguesa (vejam-se por exemplo as transcrições dos irmão Grimm, que procuram propor modelos de comportamento úteis à sociedade burguesa capitalista)
No texto “mulher-romã” procura-se resgatar a mulher, não pelas ações extraordinárias que conseguiu, mas através da partilha do seu mundo interior. Não se procura gerar admiração, mas empatia.

Ficha Artística:

Direção artística, texto, interpretação: Costanza Givone; Apoio na escrita: Claudia Figueiredo; consultoria poética: Gaya Medeiros; Concepção de figuras e sombras e obras para a exposição: Ana Torrie; Vídeo de cena: Sofia Arriscado; Som: João Vladimiro; Luz: Mariana Figueroa; Produção executiva: Francisca Lacerda; Residências: CRL- Central Elétrica, Campus Paulo Cunha e Silva; Apoios logístico: Arvore-cooperativa cultural; Maus Hábitos; Escolas envolvidas: ESMAE, Escola artística Soares dos Reis; Produção: Fogo Lento

Co-produção: 

 

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