Molde

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A curva onde o homem se espetou  
de João Vladimiro

 

“Em tempos idos, o mistério e o encanto das artes manuais eram apreciados em todo o mundo, e a imaginação e a fantasia misturavam-se com tudo o que o homem fazia, e nesses tempos, todos os artesãos eram artistas…”

 

Palavras de William Morris proferidas numa palestra intitulada “The Decorative Arts”, em Londres, a 4 de Dezembro de 1877. Nesta palestra Morris procura capacitar os artesãos que o escutam, da importância dos seus ofícios, alertando-os (nos) que o momentum que nesse momento da História arranca — em 1876 inaugura-se a primeira grande superfície de consumo, os Armazéns Bon Marché em Paris e nos E.U.A. inventa-se o telefone eléctrico — tornará os seres humanos “triviais, mecânicos, acéfalos”, rodeados que estão de objectos e espaços normatizados.

  

O local onde esta conferência foi proferida — a sede da Trades Guild of Learning — foi erigido em 1873 sobre a vontade filantrópica do reverendo Henry Solly na procura de fomentar a troca de saberes entre os seus membros e outros trabalhadores experientes, através de aulas e palestras sobre história, política económica, educação técnica, literatura, ciência e arte.

Mas é interessante verificar como Morris encaminha ao seu discurso para uma aprendizagem holística independente de uma escola ou antes, reposicionando a escola em todo lado. Tenho a certeza que hoje em dia estaria ao lado da transdiciplinariedade, como contraponto à especialização, como elemento revitalizador da sociedade. 

“Porque eu gostaria de vos convencer de que não é possível ensinar a prática do design numa escola: a prática continuada, a atenção permanente à natureza e à arte ajudarão o homem que é naturalmente um designer.”

 

Hoje em dia os parâmetros da eficiência atropelaram o artesão/artista que no vagar do tempo, imprimia em cada objecto que saía do seu atelier um cunho pessoal, ligando assim o presente ao passado, génese das formas que humildemente interpretava e reinventava. Estes objectos únicos, criados por uma alma e um cérebro, são agora mercadoria rara que se vende a preços apenas acessíveis a "um punhado de homens ricos e ociosos”, aos outros afasta-se esse contacto, substituído por incaracterísticos sucedâneos.  

 

"Essa separação, que aconteceu apenas recentemente, sob as mais complexas condições de vida, foi na minha opinião muito prejudicial para as artes: as artes menores tornaram-se triviais, mecânicas, acéfalas, incapazes de resistir à pressão para a mudança fomentada pela moda, e pela desonestidade; quanto às artes maiores, ainda que por algum tempo possam ser praticadas por homens de mentes brilhantes e mãos miraculosas, acabam forçosamente, uma vez desfeita a ligação com as artes menores — essa colaboração mútua — por perder a sua dignidade de artes populares, tornando-se meros e enfadonhos acessórios de um fausto desprovido de significado, ou engenhosos brinquedos de um punhado de homens ricos e ociosos. (…)"

 

A vertigem da competitividade mesquinha, vazia, exangue, desonesta, empurrou-nos para o consumo de objectos ao preço mais baixo possível, onde o plástico, o aglomerado de madeira e o sonho do racionalismo da IKEA, trouxeram consigo um empobrecimento e uma uniformização que infalivelmente se estenderá ao pensamento e à acção, cavalgando sempre a onda das modas e dos ventos políticos. (até os sacos desta multinacional sueca carregam hoje as cores do movimento LGBTQIA+).  

 

Numa outra palestra Morris sintetiza a raiz do problema da seguinte forma:

“(…) é como se o carpinteiro e o empregado de escritório tivessem sofrido uma evolução tão perversa que, numa árvore, o carpinteiro apenas visse uns tantos metros de madeira, permanecendo cego às suas folhas, frutos e flores; como se, para o empregado de escritório, uma ovelha fosse um pergaminho em bruto, e um ganso, umas quantas penas para escrever. Por outras palavras, parece-me que a capacidade para apreciar a beleza do mundo exterior, o interesse no desenrolar do drama da vida humana e o desejo de comunicar tudo isto aos nossos companheiros é, ou deveria ser, uma parte essencial da natureza humana e que qualquer homem ou conjunto de homens que não possuam essas capacidades são menos do que homens — falta-lhes uma parcela do seu direito de nascença, tanto como se fossem cegos ou surdos.”

 

O Homem pleno das suas capacidade nasceu para criar e, nesse processo, desenvolver as suas aptidões visuais, manuais, cognitivas. Ver melhor, fazer melhor, pensar melhor. Torna-se por isso urgente romper com um mundo pernicioso onde o ser humano é usado apenas como uma peça de engrenagem pronta a ser substituída por outra — inventa-se uma nova tarefa talvez —, de maneira a levar avante o trabalho, externamente imposto. Temos por isso que criar ilhas, que se espalhem em arquipélagos e que dêem origem a continentes onde a nossa relação com o mundo seja feita numa dialéctica constante entre prática e teoria, erro e aprendizagem, especialista e ignorante, acção e pensamento. E, se este mundo se apresenta sob variadas formas, devemos também experimentá-lo transdisciplinarmente: cinema, dança, construção, agricultura, meteorologia, matemática, música, astronomia… O toque de borboleta nestas diversas áreas não granjeará a ninguém uma especialização, mas pode, no fim de cada movimento dentro destas áreas, terminar o dia mais rico, mais completo na sua procura pessoal, indizível, misteriosa. Talvez assim se exercite a possibilidade de olhar e agir de forma singular.

 

Acreditar então na diversificação de pesquisas e disciplinas como um caminho para encontrar ligações. Sabemos que elas estão lá, apenas necessitam quem as excite, quem as partilhe, quem as queira receber. Será absurdo pensar que um médico poderia ser melhor na sua profissão se tiver um contacto mais estreito com a agricultura?

Estas ligações são interdependentes e será inocente da nossa parte acreditarmos que a nossa relação com os objectos que forçosamente usamos e nos rodeiam no dia-a-dia não enforma o nosso pensamento. A crise ambiental que vivemos é um triste espelho disso. Quarenta anos de crescimento económico alavancado por um consumo exacerbado de produtos de vida curta não é fácil agora de travar. Terá que ser uma vontade genuína, da responsabilidade de cada um, uma força interna que nos impele a tomar as rédeas da nossa vida e afastarmos os estilos de vida “em segunda mão” impingidos pelo poder socio-económico-cultural mais organizado.

 

A criação de um espaço que respeite o tempo interno de cada um e que albergue múltiplos saberes que se contaminam entre si, é um sonho antigo do Homem a que queremos com este projecto dar a nossa humilde contribuição. Ecos da Bauhaus, do Black Mountain College e de muitos outros que não chegaram às páginas dos livros de História. Aqui permitimo-nos grandes sonhos: um bosque, um pequeno lago, um anfiteatro ao ar livre, uma aula ao ar livre, um mirante, uma pequena estação metereológica, um poço onde podemos descer, uma biblioteca, um estúdio de dança, de música, uma oficina, uma horta… Um sítio de trabalho e de partilha de saberes, um caos criativo que se estende em várias direcções, como as árvores, a água, o som Um espaço onde aprender seja tão natural como respirar.

 

Deixo-vos um último excerto de Morris que, apesar dos seus 150 anos, é ainda (infelizmente), actual e que por isso serve de base para um pensamento que com este espaço se quer tornar acção, aproximando o Artista do Artesão, a Arte do Público, a Natureza das Pessoas, a Liberdade do Homem. 

 

“Se nada se faz para proporcionar a todas as pessoas algum prazer para os olhos e algum descanso para a mente no aspecto das suas casas e dos seus vizinhos, enquanto o contraste entre os campos, onde vivem os animais, e as ruas, onde vivem as pessoas, for tão vergonhoso, a prática artística permanecerá nas mãos de um pequeno grupo de homens muito cultos, que têm a possibilidade de ir a locais belos, cuja educação lhes permite, na contemplação de glórias passadas, ignorar a miséria quotidiana em que vive a maioria das pessoas. Meus senhores, eu acredito que a arte está de tal maneira ligada à liberdade vivida em alegria, à franqueza e à realidade, eu creio que ela definha de tal forma no meio do egoísmo e do luxo, que não sobreviverá a esse isolamento e a esse exclusivismo. Vou mesmo mais longe, e afirmo que não desejo que ela sobreviva, Eu defendo que seria vergonhoso para um artista honesto desfrutar do que acumulasse de tal arte, da mesma forma que seria vergonhoso que, num forte sitiado, um homem rico se sentasse aa comer requintadas iguarias no meio de soldados esfomeados.”

 

 

 

[os excertos de William Morris (1834-1896) aqui apresentados foram retirados do livro Artes Menores editado pela Antígona]