Molde

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Parte di una rete di micelio fotografata con un microscopio elettronico (Loreto Oyarte Galvez/AMOLF, SPUN)

Ligações subterrâneas
de Costanza Givone

 

Onde quer que andemos, existe uma ligação subterrânea.* Toby Kiers

O micélio, ou seja, o aparato vegetativo dos fungos, percorre o subsolo numa densa rede de conexões entre plantas. O micélio é veiculo de elementos nutritivos de vital importância, transporta informações, tem uma relação simbiótica com as raizes que nos faz perguntar onde inicia o micélio e onde acaba a planta. O micélio toma escolhas nos percursos que constrói e define, a partir da disponibilidade destes elementos nutritivos, em que medida cedê-lo às plantas. No seu processo de crescimento, o seu corpo interliga-se, sem limites definidos, com corpos alheios e é capaz de tomar escolhas, sem ter uma estrutura centralizada. Parece agir de maneira “inteligente”, não tendo nem cérebro, nem corpo, nem centro (do latim intelligere, de inter e leger: escolher entre).

O comportamento do micélio é altamente inspirador, seja porque nos desvela um mundo subterrâneo altamente ativo, seja porque nos ajuda a pensar outros tipos de “inteligência” e formas de “cooperação” e “comunicação”.

E se nos procurássemos libertar da ideia de indivíduo como entidade isolada com um funcionamento altamente centralizado (no cérebro) e nos focássemos nas ligações e redes que o nosso corpo é capaz de criar?

Em 1940, o neurobiólogo e Prémio Nobel Charles Sherrington descreveu o cérebro humano como "um tear encantado no qual milhões de bobinas tecem uma teia dissolvente". Comportamentos complexos - incluindo a mente e a tecelagem matizada da experiência vivida e consciente - surgem de intrincadas redes neurais que se remodelam constantemente de uma forma flexível. *

O cérebro é uma rede viva e flexível, um mapa que, como nas cidades, tem um centro com uma atividade mais intensa, que se expande pelo corpo todo e através dos sentidos, o transborda. Desta forma o nosso corpo-mapa ultrapassa os limites do corpo-matéria para fundir-se com a realidade a sua volta.

No conto de ficção científica de Vandana Singh “a mulher que se acreditava um planeta”, uma mulher acorda um dia com a consciência clara de ser um planeta, e chega, no fim do conto, a voar para o céu e juntar-se com os outros planetas.

O nosso corpo é Oikos (casa em grego) pela inúmera população de fungos e bactérias, inquilinos ou até parceiros nas tarefas primaria (as bacterias que nos ajudam na digestão por exemplo) e é parte parte integrante desta matrioska que é o ecossistema terrestre (ecologia, de oikos e logos: estudo da vida como um conjunto de binômios contidos um no outro).

Sara Viera Marques, em residência no CAMPO com o projeto “resonating islands”,  pergunta que topografias são necessárias para que novos ecosistemas e cosmogonia aconteçam e que ficções nos permitem pensar e gerar outros futuros. Na sua investigação põe em pratica topografias, geografias e metereologias onde o ser humano não ocupa o lugar nem a narrativa central.

O principio do seu trabalho é a relação de uma mulher com uma pedra. Uma pedra relativamente pequena, porque a grande era difícil de transportar, mesmo assim, esta pedra do tamanho de uma mala de senhora, tem a historia do mundo para nos contar. Seremos capazes de ouvi-la? Sara fica no espaço e procura ouvir as vibrações geradas pela pedra, através praticas de exploração do som como experiência física e material do corpo no espaço. Dois corpos no espaço, a mulher e a pedra procuram a relação subterrânea que lhe permita de comunicar.

A educação formal costuma ter uma estrutura dialética, o sujeito (ser humano) estuda o objeto (meio ambiente/outro). Esta maneira de pensar a realidade implica a necessidade de demarcar territórios, definir o que pertence ao eu e o que não pertence, para puder estudar, educar, explicar. Toma-se como ponto de partida que o sujeito (ser humano/ ser pensante) é exterior ao objeto (meio ambiente ou outro ser humanos, com caraterística diferentes). Cria-se uma realidade fictícia, que não tem em conta a complexa rede de ligações que percorre, subterraneamente a vida. Dessa maneira transmite-se um saber parcial que retira a linfa vital ao conhecimento.

Henrique Fernandes, durante a sua residência no CAMPO, gravou sons nos arredores do espaço e reproduziu uma cartografia sonora de Pedroso. Sons distantes, de uma mesma área geográfica, foram postos em comunicação graças a sua reprodução num espaço, diferente do local onde haviam sido captados. A construção deste mapa sonoro, desvelou ligações inesperadas entre sons que não costumam ser ouvidos simultaneamente (mesmo que eventualmente aconteçam em simultâneo), criando, no corpo do ouvinte, uma sensação de expansão e ubiquidade.

A pesquisa artística pode tornar-se uma oportunidade para criar novas ligações ou desvelar as que já existem,  e assim propor outros caminhos para estudar e relacionamo-nos com quem e o que nos rodeia, nos atravessa e nos contém.

Esta procura de ligações inspirada no funcionamento decentralizado do micélio, não implica a dissolução do eu, pelo contrario, se de um lado procura uma relação permeável com a realidade por parte do individuo, de outro valoriza cada pessoa na sua totalidade e unicidade sem ter que a catalogar e pôr numa caixa ou ilha.

Os coros polifônicos são um excelente exemplo da relação entre individualidade e comunidade, num espaço criativo onde cada individuo, ao mesmo tempo conta a sua historia e faz parte de uma historia mais ampla e complexa. Não é preciso forçar ligações, elas irão aparecer.

Em meados da década de 1980, o musicólogo americano Louis Sarno gravou a música tradicional do povo Aka. Uma destas gravações é uma musica intitulada "Mulheres que apanham cogumelos". Enquanto colhem cogumelos, representando com as suas pegadas a forma subterrânea da rede de micélio, as mulheres cantam, acompanhadas pelos sons dos animais da floresta. Cada um canta uma melodia diferente, cada voz conta uma história musical. Todas estas melodias se entrelaçam, mantendo a sua multiplicidade."Mulheres que apanham cogumelos" é um exemplo de polifonia, ou seja, a união de várias vozes em que cada uma mantém um papel distinto, ou a união de várias histórias contadas ao mesmo tempo. Ao contrário de um coro a cappella de quatro vozes, as melodias destas mulheres nunca se fundem numa única frente. Nenhuma voz renuncia à sua identidade individual, mas também não rouba a cena as outras. O micélio é uma polifonia em forma corpórea. Não há voz dominante, não há melodia principal, não há planeamento centralizado, e no entanto emerge uma voz. *

Que voz é esta? Não é a voz do diretor de orquestra (que não existe), é a voz única daquela comunidade naquele espaço e tempo, uma identidade nova feita de múltiplas identidades que comunicam.

Henrique Apolinario fez experiencias interessantes com grupos de vozes, Henrique assume a posição de diretor, mas ele não domina as vozes, as ajuda a percorrer caminhos em conjunto. No trabalho de Henrique a individualidade de cada interprete fica muito clara no meio do grupo, acrescentando-se a dele. Estar em grupo ou em coro, não quer dizer apagar a própria individualidade, nem falar baixinho; pode-se gritar violentamente, desde que nunca se pare de ouvir. Então afinal cantar é ouvir. E não acham que também estudar os fungos subterrâneo é uma forma de audição daquilo que não se vê?

Darwin tinha razão, sobrevive o caráter genético mais capaz de responder as dificuldades impostas pelo ambiente. Mas a luta pela sobrevivência não precisa refletir-se necessariamente em capitalismo e competição. A colaboração faz parte da natureza, assim como a competição. Os lichens, para sobreviverem, associam-se a outros seres vivos, é a criação de ligações que lhe garantem a sobrevivência, estas ligações são impossíveis de definir de maneira unívoca, são um continuum que vai do mutualismo ao parasitismo. O micélio vive há muitos mais anos que nós instaurando uma dinâmica, que nos obriga a mudar constantemente a nossa perspetiva e aceitar a incerteza. Esta incerteza, nos permite pensar novas possibilidades, fluidas de organização do pensamento, aplicável a toda a atividade humana.

 

* Entangled Life, Merlin Sheldrake, 2020. Este livro foi a principal fonte de inspiração deste artigo, juntamente com as experiencias artísticas desenvolvidas durante o primeiro ano de atividade do espaço CAMPO.